Aos perdidos no deserto.

Olá prezado navegante, o que o fez cair aqui neste ambiente árido e sem vida (quase nenhuma)? Este lugar não é pra você. Não estou querendo expulsá-lo, porém! Fique à vontade.

Deixe-me contar - já que está por aqui - o motivo da criação deste ponto no meio do nada de um mar de IPs e máscaras de sub-rede. Mas antes, acho que posso mencionar que este blog já teve alguns nomes: fl4v10, tremdeler, poráguabaixo e outros de que eu não me lembro. Porém acho o atual nome mais adequado já que não possuo seguidores e apenas eventualmente recebo a visita de algum incauto redirecionado por motivo que foge a minha compreensão. Entrou em uma trilha e se perdeu?

Volto à razão da criação do blog, se o senhor ou senhora ainda estiver aí, que reverbera vazios verbos - e artigos, e adjetivos, etc - ao vento arenoso dos bytes. Certamente, se o ilustre visitante escreve e se goza de relativa autocrítica e cuja vaidade não interfere excessiva, deve já ter jogado fora alguns de seus escritos. O problema disto é que se perde alguma coisa boa dentre as tantas coisas ruins. Perde-se também um pouco da própria história literária (ainda que questionável ou incipiente). Como vamos perceber que evoluímos se separamos só um pequeno texto que ficou bom? Neste sentido criei um depósito de meus escritos. Confesso que a intenção era também me forçar a escrever já que poderia - algo que não se concretizou - ter eco em algum leitor que seguisse este espaço.

Assim, sem mais, o espaço existe. E existe só para mim (na maioria do tempo). Caso queira sinalizar na areia um traço de presença humana, fique a vontade para deixar um recado após o sinal!! E obrigado pela visita!

BEEP.

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quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O matador de cães

O cão foi encontrado em uma lata de lixo pelo gari, afogado em sangue talhado. O gari não gostava mesmo de cães, aquelas criaturas que não podiam vê-lo correr. Eles que o assustavam com frequência ao passar próximo aos portões. 

O próximo foi encontrado em um terreno baldio. O sangue havia se espalhado pelo chão de terra e dava pra ver claramente o buraco na barriga do cão. Ninguém deu importância porque mesmo sendo uma cidade pequena de Minas, uma vila na verdade, os dois foram encontrados nos dois extremos da localidade.

Ah! Mas quando o terceiro, quarto e o quinto apareceram os comentários nos botecos eram constantes. Alguns brincavam perguntando se os cães haviam se transformado em petiscos pra tomar com pinga. Outros diziam que o homem que saia na calada da noite para matar os desafortunados indivíduos de quatro patas deveria ser carteiro que nutria ódio ou trauma desde infância. Uma briga aconteceu quando um velho, tio de um carteiro, não gostou da insinuação xingou o acusador além de ter derrubado a pinga do amigo na própria goela em sinal de protesto.

O que mais se queria saber nas rodas de conversa, dentro dos botecos ou na conversa sussurrada das fofoqueiras, era quem era o tal homem que matava os cidadãos caninos da cidade. Não se sabe por qual razão todos cismaram que o serial canicidar era homem. 

Porém, ninguém se importava muito com os cães mortos. Eram bons animais, não incomodavam tanto, mas na cidadezinha não havia aqueles grupos de protetores de animais e madames que ficavam enchendo a paciência de todo mundo. Até tratavam animais melhores que pessoas. Não davam a mínima pra uma criança faminta, mas alimentavam os bichos à pão de ló. Que importava se alguns cães estivessem morrendo? Claro, era postura decorosa dizer que era uma judiação. Mas todos tinham sua vida pra cuidar. Os bichos se reproduzem sozinhos. Hora ou outra apareceriam mais cães na cidade se estes acabassem. Cães não são ameaçados de extinção. 

Ademais, uma hora esse rapaz se cansaria de matar os bichos. O diabo era ficar curioso com o motivo da matança. Se bobear era uma missão nobre. Livrar os cães da agonia dessa vida de esmolar comida. Poderia saber o misterioso homem de doença passada pelos cães. Poderia os cães estarem matando a criação de codornas da vizinhança. Não, ninguém deveria julgar. Vai ver, qualquer hora dessas ele se cansa de bancar o matador. Ou sente que já é seguro deixar os outros cães livres pra viver a vida sem disputar com muitos outros a sorte do pão, ou osso, de cada dia.

E foi justamente o que aconteceu. Poucos outros cães foram mortos. Uns três talvez, ou quatro. Cinco no máximo, e o assassinio canino cessou seu ofício. O último foi encontrado por uma senhora gorda que com o susto de encontrar o defunto peludo no quintal de casa acabou por se esborrachar no chão. O grito trouxe o neto pra fora de casa que não deu conta de acudir o soerguer de tanto peso. O caso virou comentário no bairro. Acho até que o tombo foi mais comentado que a pouca novidade de mais um cão morto.

Se está se perguntando sobre a polícia eu te digo, na vila a polícia lida com assuntos de gente. Como os cães não eram de ninguém não havia reclamante. Que desperdício seria ocupar a estrutura do estado com inumanos. Não queremos desperdiçar a confiança e o dinheiro do povo.

Depois disso os cães que sobraram viveram em paz. Ninguém soube de fato quem era o tal homem. Tudo voltou à normalidade como anunciaram aqueles que puderam se orgulhar do "eu disse pra você" proferido em sabedoria de conhecimento da vida.


Bom, pelo menos até alguns anos depois, encontrarem uma adolescente sem vida embebida em sangue com um buraco no ventre não muito longe de onde foi encontrado o primeiro cão.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Azul - Prólogo

Eu queria dormir, estava cansado, mas aqueles pensamentos ficavam girando em minha mente. Era meu ego, eu sabia, não queria ter raiva, não queria ficar pensando, só queria dormir. Mas ele me disse que eu não era racional, justo eu, não podia suportar esta ofensa. Ele é quem não era racional, ele ignorava toda a racionalidade, era ele quem definia o objetivo e agia de forma contrária, contraditória. Eu é quem devia dizer isso a ele. Mas se ele quer que eu faça o relatório, eu o farei. Um relatório inútil. Porque estou pensando nisso? Não queria pensar em nada. Eu as vezes fazia este exercício de não pensar em nada, apenas sentir. Ou pensava em algo bom, ou em um lugar interessante. Ou em alguém interessante, mas a mente resiste. Sinto a raiva enrijecendo meu corpo, meu semblante em ondas intermitentes. Meu pensamento gira e sempre volta na raiva. As vezes mesmo exausto passam-se horas sem que eu consiga dormir. Mas hoje o cansaço está vencendo, as paisagens e a roleta dos pensamentos, gostava de chamar assim, flutuavam e promoviam a desconexão com a realidade, e neste ínterim, quando acordava, percebia que estava quase dormindo. 

A roda d'água começou a girar, o rio estava calmo, os pés sentiam a terra. Agora entrava em um lugar fresco e com chão úmido de terra. Era um barracão feito de madeira e palha, havia muitas espigas de milho no chão. O cheiro de palha era bom, era hora de debulhar o milho, senti-lo nas mãos, no sono, no sonho, na mente, no relaxamento. A mente sempre acha uma forma de purificar-se, de atenuar os desprazeres pra não pifar. A prática da meditação pela manhã ajudava muito, desde que começara minha raiva não era tão frequente. Meu controle melhorara. Agora o barracão ficava cada vez mais escuro. Tudo parecia se esvanecer. Minha mãe estava lá comigo, meus avós já falecidos sentaram-se também. Meus tio-avô trabalhava num baleio de bambu. Trançava as tramas, tudo estava calmo, quase se apagando e se perdendo no sono profundo, profundo como a escuridão do barracão, tranquilo como o silêncio quebrado apenas pela água do riacho que passava ao lado... tranquilo... silêncio... profundo... sono... escuridão... 

Subitamente em um clarão tudo se iluminou, despertou, um clarão azul, minha cabeça parecia imersa em uma piscina ou banheira aquecida. Os contornos começaram a ficar nítidos, em contrastes em azul e preto. Era meu quarto, era onde eu estava, consciente, deitado, de olhos fechados. Mas ainda assim podia ver em nítido azul como se meus olhos estivessem abertos todos os cantos do quarto. Não precisava virar a cabeça, não precisava abrir os olhos. Não precisava caminhar nem focar, nem direcionar o olhar. Era como se visse tudo de uma só vez. O quarto todo em 360 graus. Mais do que isto, em todas as direções. Aliás, me dava conta agora, também fora do quarto e além das paredes. Tudo ficava menos nítido ao se distanciar, mas mesmo assim podia ver muito além do que a visão normal. Era um sentimento, uma sensação, uma visão azulada, um novo sentido, uma nova percepção. Ao abrir os olhos e acender a luz, pude perceber que não era um sonho. Algum sentido novo havia despertado, que me permitia ver de outra forma, em imagens que se sobrepunham às imagens captadas pela córnea e indo além. Que percebiam vultos. Que percebiam objetos ligeiramente diferentes. Mas uma leve lembrança dos pensamentos antes de dormir, uma leve pontada desses pensamentos ruins apagaram a chama azul. Devo dormir novamente. Conversaremos sobre a luz azul em meus olhos mais tarde...se ela voltar amanhã...

sábado, 5 de janeiro de 2013

Ele

depois que a flecha atinge seu alvo, nada mais pode ser feito

Era um dia da semana qualquer, talvez um terça-feira e era por volta de uma da manhã. Eu assistia um filme que falava sobre um homem que saía pelas ruas destruindo carros e atirando nas pessoas diante de um drama pessoal qualquer. No intervalo fui ao banheiro e sem qualquer motivo tive uma crise de choro. Caminhei de um lado a outro da casa até que finalmente peguei as chaves do carro e saí dirigindo sem rumo. Quando percebi estava na estrada de Cataguases-Sereno em uma parte da estrada em que havia uma reta, que segundo diziam produzia um auto índice de acidentes, parei o carro. Desliguei os faróis e fiquei cerca de uns 40 minutos quieto, com o rosto encostado no volante. 

Estava em transe, agora eu sei. A neblina já tomava conta da estrada e quando levantei o rosto, ao meu lado, do lado de fora, na janela havia uma criatura alienígena com seu aspecto indefinível entre rústico e angelical, entre animal e vegetal. Fui envolvido por uma bolha de vácuo. Perdi o fôlego mas não era como me afogar pois nada entrava em meus pulmões apenas saía o ar. Não foi desconfortável. E então só existia a escuridão. 

Eu nem sabia que existia a luz. Eu era apenas uma criança. Uma pressão agia e fui arrancado da escuridão aos berros. Mudo, cego e surdo ao mundo mas sentindo dor, nas mais diversas intensidades, dor psicológica, física e sensorial. Eles nos olham e nos admiram, sentem ternura e nos protegem. Neste planeta é assim. Aí, dia a dia vai crescendo em volta de nosso corpo de criança um exoesqueleto. Uma mão gigante cai pesada provocando pavor e toda aquela massa difusa e espessa vai se fortalecendo. Esta espécie de armadura orgânica nos protege um pouco da dor, mas nosso aspecto deixa se torna mais rústico. Caminhamos por corredores, prédios, monumentos, ruas e cidades e indistintamente tudo é branco, claro, ostensivamente alegre ou colorido, limpo e brilhante. Não há qualquer rachadura ou imperfeição nas paredes e nos artefatos tecnológicos. Não se consegue mais ver a natureza profunda deste planeta, do meu planeta. Jamais consegui encontrar uma sombra ou um refúgio. 

Os olhos, que apesar de verem com perfeição todo o ambiente não distinguem nenhuma feição. Meus pares passam por mim sem foco, como uma câmera desregulada. As vezes ao tentar tocá-los eles se desfazem em fumaça. Mas alguns se tornam distinguíveis, reconheço suas feições e as vezes posso perceber o que eles pensam. Só que todos, invariavelmente após algum tempo voltam a desfocar-se e a perderem-se no meio dos rostos sem identidade. 

E assim vou atravessando a paisagem artificial num passo solitário e deixando crescer em mim a casca dura e feia que me afasta do perigo, só com ela posso lidar com a atmosfera violenta do meu planeta. Junto com ela cresce minha cognição e inteligência. Conhecimentos dos mais variados são aprendidos e um cérebro prodigioso potencializa-se. Entretanto a criança continua enterrada dentro da armadura. Está presa, vulnerável e triste. Ainda sentindo medo e dor, precisando de proteção. Só que quem olha não a vê sobre massa orgânica da armadura. Sonhamos um dia encontrar a escuridão e nos entregar a ela. Não é possível suportar tanta luz e beleza quando ocultam a verdadeira natureza de tudo e estes olhos não possuem pálpebras.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Conto de Primavera.

O pássaro pousou na janela. O dia estava lindo, o céu azul. Um raio de sol pousava no chão após esbarrar delicadamente na cômoda antiga de madeira de lei que tinha o cheiro de uma época em que ela ainda não era nascida. As lascas na porta depositaram bolinhas de madeira no chão de tacos. Divertiu-se com a lembrança de que alguns deles estavam soltos. O forro do teto também era de madeira mas as paredes brancas que soltavam cal eram de tijolos. Os olhos já estavam se acostumando com a luz e as dores herdadas do chão duro em que havia dormido já não eram tão fortes. Vendo de baixo tudo era grande. Que bom que nenhuma barata ou outro inseto qualquer veio perturbá-la durante a noite. Tentou se mover e sentiu uma fisgada de dor nos pulsos e nos tornozelos. Não estava certo, a claridade de um dia como esse não combinava nada com a situação. Combinava talvez com um bom banho de mangueira e um passeio por estradas que levavam a belas paisagens e cachoeiras. Ficou quieta para não piorar a respiração ofegante. Adormeceu novamente.

Um vento refrescante a acordou e agora o pequeno pássaro amarelo, parecido com o que havia visto na janela, dava pulinhos no chão do quarto. Precisava de um banho, precisava comer, precisava de energia, precisava acordar. Só ouvia os sons da natureza e a paz que ela trazia. Saudade do barulho, das pessoas, dos pais, do abraço de seu namorado. Chorou e depois de algum tempo desistiu de chorar. Algo mais estava errado. Porque não voltavam com a bandeja? Porque não voltavam com a violência e com a invasão de seu corpo, de sua alma, de sua dignidade? Já se passavam dias. Dias em que teve medo, revolta, repulsa, esperança, dor, ódio, pavor, nojo, fé e por fim resignação e desistência.

Preferia as discussões, os berros e o stress. Desde que a abduziram da porta de casa, encapuzados e violentos aos gritos até o momento em que deixou o desconfortável porta-malas para vislumbrar a casa antiga no campo com seu jardim mal cuidado e rodeada por árvores, jamais havia ficado sozinha. Levavam bandejas com frutas, biscoitos e as vezes comida de micro-ondas. Levavam-a ao banheiro quando desejava. No principio se divertiam dando banho nela e depois – por perceberem que dava muito trabalho – deixavam-a tomar banho sozinha tomando cuidado de deixar a porta aberta. Havia também o abuso e a violência. Mas agora tudo havia cessado. Absolutamente tudo. Estava exausta, fraca e suja. Havia excreções e fedor impregnados em seu corpo. Não comia há dias. Poderiam eles terem sido presos. Poderiam ter sofrido um acidente enquanto saiam a noite para se divertir, confiantes de quem ninguém encontraria o cativeiro. Poderiam ter morrido em um tiroteio com a polícia ou fugido. Não sabia, só sabia que não havia ninguém. Não havia forças. Não havia nada. A não ser um lindo dia de primavera e um pássaro amarelo esperando para comer seus olhos.

sábado, 14 de julho de 2012

Entrevista

Passou os olhos sobre mim e antes que eu dissesse uma só palavra disse de forma tranquila e firme: você não serve.

Foi desagradável como um alimento indigesto engolido à seco. Me senti nu diante da recepção fria, arrogante e indiferente – porém antipaticamente educada – daquela entidade. Ainda esperou que eu começasse a esboçar algum 'm mas...' para ter o prazer de me cortar a fala. Olhou-me nos olhos, tinha um olhar cortante, um sorriso nojento de quem faz questão de mostrar que te considera lixo, os cabelos cuidadosamente cortados e penteados, nenhum vestígio de barba e vestido impecavelmente como um executivo. Completamente diferente de mim ou de como eu o imaginava antes de entrar naquela maldita sala. Podia agora concordar com o ditado que dizia que o diabo não é tão feio como pintam, mas o arrepio de estar diante dele era quase ensandecedor.

__Vou me dar o trabalho de explicar antes que comece com seu 'bla bla bla' e comece a me entediar. Você certamente achou que ia me impressionar com esses cabelos longos, essa blusa preta com a estampa de uma freira se masturbando com um crucifixo e esses spikes no pulso. Sei que isso pode ser um duro golpe pra você que provavelmente passou a vida inteira achando que era meu servo, o próprio “o adorador do diabo” que baboseira. Você é idealista e seu visual só demonstra que quer afastar os mauricinhos e construir algo por si mesmo sem precisar se enquadrar no que chama de “sistema”. Isso não me interessa meu jovem. Preciso é de alguém que saiba dissimular, fingir, tirar proveito da esperança alheia, usar o corpo, usar os sentimentos alheios, o sofrimento alheio, tudo em proveito próprio e em meu proveito, quero alguém popular, bem vestido e com palavras bonitas nos lábios para cativar as minhas ovelhas. Porque eu sou o lobo mau e você apenas uma ovelha desgarrada e que não pertence ao meu rebanho.

Quando saí daquela sala que devia cheirar à enxofre mas na verdade tinha um agradável perfume tão sutil que ainda não consigo identificar estava mais perdido do que quando entrei pois fui recusado pelo inferno e não há nada que me atraia no reino dos céus.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A mãe de Lucas



A mãe de Lucas

O calor calmante se espalha da boca à garganta e em seguida aos pulmões como se fosse o efeito de uma respiração profunda em um momento de agonia. O prazer da consistência da fumaça e a sensação de uma leve tontura indica que a nicotina chegou ao cérebro já tão desacostumado da substancia. Fumava pela primeira vez em quatro anos. Pagou ao dono do bar e saiu a caminho do necrotério. Ninguém haveria de criticá-lo naquele momento.

Não sentia vontade de chorar, não sentia dor, mas uma ausência, um afastamento, o pensamento sempre longe, imaginando, cogitando, refletindo em uma singular nostalgia. Todos já estavam providenciando algo e ele só veio ao necrotério para trazer a roupa com que sua mãe seria enterrada. Com toda aquela confusão de atestado de óbito, ligar para os familiares, transporte intermunicipal, providenciar funerária, escolher o caixão, e todos os trâmites necessários Lucas a quem não se podia cobrar senso prático naquele momento ficou encarregado somente desta tarefa menor que realizara rapidamente antes de ir comprar seu cigarro. Já podia ir embora, mas por alguma razão não desejava fazê-lo. Talvez porque onde quer que fosse não conseguiria fugir da realidade incontestável ou talvez por querer ficar próximo da sua falecida mãe pois sabia que nunca mais iria vê-la. Sendo assim voltou ao necrotério, sentou-se no banco e ainda fumando seu cigarro começou a pensar sobre a vida daquela que viveria de agora em diante somente em sua memória e na daqueles que a conheceram.

Antes da internação às pressas na Santa Casa ela gozava de boa saúde com exceção dos resfriados esporádicos ou de alguma epidemia que as vezes se espalhava no verão. Era uma mulher contida em seus comentários e sempre preocupada em não causar magoas a ninguém. Não sabia dizer não e por isso estava sempre às voltas com os problemas dos outros. Com seu salário de funcionária pública ela e o filho nunca tiveram grandes dificuldades financeiras. Enfim a vida era boa, mesmo que um pouco longe da cidade natal que ficava aproximadamente a uns cem quilômetros de distancia. Lucas adorava quando vinham visitar os avós pois ficava até tarde da noite brincando com os primos, e agora mais velhos iam para nas festas e voltavam só de madrugada. Seu padrasto as vezes até lhe emprestava o carro. Hoje sua mãe reunia a família mais uma vez.

Sua gravidez foi um período de muito sofrimento e angústia. Com um filho nos braços e a desconfiança de todos se não tivesse conseguido a transferência sabe-se lá o que poderia ter acontecido. “Ninguém faz um filho sozinha” diziam os pais e irmãos. Era apontada na rua por desconhecidos e fofoqueiras. Era pressionada por todos os parentes preocupados que tentavam faze-la revelar qual era o problema o que ela estava escondendo. Porque não queria dizer o nome do pai? todos sabiam que ela não era uma mulher promíscua. Na verdade, se não houvesse a criança poderiam apostar até que ela era virgem. E ela era, mas dizer alguma coisa naquela situação só iria piorar as coisas. As vezes passava horas chorando compulsivamente. Foi um terremoto em sua família, para eles o fato era que ela não confiava neles para revelar a verdade. Poderia ela ter engravidado de um traficante, ou ter o pai fugido, ou ter sido violentada, ou ter feito sexo com vários homens e até, oh deus, com algum parente.

Em uma daquelas noites em que todos estavam reunídos na sala vendo TV, alguns cochilando no sofá, outros comentando a novela outros repreendendo os que estavam falando durfante as cenas, nos comerciais todos foram para cozinha e inevitavelmente o assunto veio à tona. Bombardeada por todos os lados com perguntas e com a indignação dos presentes ela, apesar de seu temperamento suave, explodiu em um grito animalesco e amaldiçoou-os. Em seguida gritou a plenos pulmões que todos eram hipócritas e bradou “porque é tão fácil acreditar em uma estória que aconteceu há mais de dois mil anos de uma mulher engravidou virgem de uma criança e ainda que esta criança era a salvadora do mundo mas não podem acreditar que eu engravidei sem ter relações sexuais com ninguém? Não usem dois pesos e duas medidas. Eu não sei o que pode ter acontecido, já ouví estórias sobre enxugar na mesma toalha, sobre privadas sujas de sêmen. Eu não tenho como saber e não vou inventar nada apenas para satisfazê-los, nem sei o que estou dizendo por favor parem de me atormentar” e desabou novamente em seu já habitual choro compulsivo. Depois disso foi unanime que este seria um assundo proibido na casa, mas o clima já estava pesado o suficiente. Porém a transferencia pouco tempo depois aliviou as tensões e ela sentia que cada vez que visitava sua família a tensão se dissipava um pouco mais.

Na sua morte certamente encontraria a paz de espírito que desejava. Se libertaria por completo da mágoa que a oprimia o peito. Pelo menos, depois de algumas sessões de análize, foi convencida a se perdoar e a seguir em frente, tendo a certeza de que (o que quer te tenha acontecido) nada fora culpa dela.

O banco ao ar livre do necrotério já estava deixando a bunda de Lucas quadrada. A binga do cigarro jazia perto da lata de lixo, mas não dentro dela. Ainda não queria ir embora, talvez comprasse outro cigarro e voltasse novamente para o banco de cimento para gozar do direito de se entristecer em paz. Antes que se levantasse uma mão se estendeu diante dele segurando um maço de onde saltava um cilindro branco.

__Fuma? - Perguntou o senhor de cabelos meio grisalhos
__Hoje sim. - Respondeu Lucas ao senhor que imaginou ser o responsável pelo necrotério.
Enquanto acendia o cigarro lembrou-se deste senhor parado à porta do necrotério observando-o durante um bom tempo antes de se aproximar. Não dera atenção na hora, mas também reparara no rosto pálido do homem quando foi levar a roupa de sua mãe. Parecia que ele estava assustado, parecia que havia visto um fantasma.

__Porque seu pai não veio com você? - perguntou o senhor antes de tragar profundamente.
__Ele foi buscar a família do meu tio que mora na roça – respondeu
__Hum. - confirmou sem expressão alguma.
__Na verdade ele é meu padrasto, não conheci meu pai. Mas isso não importa agora não é?
__Talvez importe – disse o senhor parecendo produrar um gancho para continuar o assunto. Deu uma pausa e como Lucas não disse nada, continuou:
__Já ouviu falar de catalepsia meu jovem?
__É uma doença que a pessoa parece que está morta. Já li sobre isso, algumas pessoas colocavam sinos nas covas para dar alerta caso acordassem em um caixão. - disse Lucas pensando se o assunto era proposital ou apenas para matar o tempo.
__Exatamente. Então acomode-se que vou te contar uma estória sobre um necrófilo, uma criança e uma mulher que morreu duas vezes. Meu filho...



segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Furo no Futuro - Índice


Este conto foi escrito em Abril de 2010 e como o blog foi reativado resolvi publicá-lo. Vou fazer isto em partes para que não fique demasiado enfadonho para o leitor:

Furo no Futuro

Parte I
Parte II
Parte III
Parte IV
Final

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Juca e o ventilador

A hélice girava lentamente e a menina Juca distraia-se olhando seu movimento cadenciado. Estava quase parando. Ela estava grogue como quando acabamos de acordar após uma noite de excessos. Sua mente parecia girar azul como a hélice do velho ventilador. Era novinho, mas suas grades pareciam estar estranhamente enferrujadas. Meu ventilador, pensou. E uma voz soou em sua mente, sim. Olhou para o lado e só então percebeu ter falado em voz alta. A voz era de um moço sorridente que a olhava com ternura, tinha a barba negra e o rosto estranhamente familiar, apesar de não conhece-lo. Se deu conta de que não estava sozinha. Além do moço havia um senhor de cabelos brancos e rosto cansado sentado na poltrona à frente e uma moça que parecia ser namorada do rapaz que lhe respondera sorridente. Eles conversavam coisas sem sentido e falavam de pessoas cujos nomes não evocavam nada, nem cheiros, nem sabores, nem sensações de tipo algum.

Sonhos são quase sempre assim, enevoados e repletos de imagens incompletas e de sensações confusas e imprecisas mesclando-se em um turbilhão de pensamentos que mesmo desconexos se chocam e se aglutinam uns aos outros formando o roteiro da realidade subconsciente que é criada durante o sono. Mas Juca não dormia, mas certamente acordara de pouco e as sensações do sono ainda estavam arraigadas em sua mente e teimavam em deixá-la assim como uma graxa que teima em deixar as mãos mesmo com muito sabão. Devia ser isso, certamente, e o sabão da realidade não tardaria em limpar o sonho em alguns instantes. Melhor então seria entreter-se com o ambiente e assim ajudar o sabão à agir, observação era sem dúvida a água da realidade.

Havia um quadro sobre a poltrona da frente em que diante de uma paisagem bucólica caminhavam homens e trajes rurais com suas ferramentas de trabalho. As poltronas eram de uma napa marrom e já estava rasgada em alguns lugares. Sobre um móvel irregular e com duas portinhas de vidro, alguns buracos quadrados estratégicos havia uma TV colorida pequena que estava desligada e alguns enfeites de louça. E claro também havia seu ventilador. Onde estaria? Visitando alguém? Era improvável pois lá estava seu ventilador. Sua mente trabalhava.

__Cadê o Dedeco? - perguntou finalmente ao moço sorridente.

As pessoas se entreolharam e após algum silencio se ouviu uma voz.

__Dedeco é o primo dela – disse o senhor de cabelos brancos.

Ela sabia perfeitamente que Dedeco era seu primo, e o que tinha aquele senhor com isso? Ficou com uma raiva daquele velho por ficar se entrometendo na sua conversa.

__Vocês não o conheceram. Ele morreu ainda jovem. - disse novamente o velho.

__Ah tá, o tio Dedeco. Me lembro de ouvir vocês falando dele. - disse o moço, e continuou – não quer que pegue um café mamãe.

__Não. Mas eu estou com sede, se puder trazer uma água meu filho.

E Juca viu Marcos se levantar. Sim, seu filho, sua casa, seus dedos enrugados, suas mãos cansadas. A menina Juca com seus cabelos brancos e corpo fadigado sorriu pela primeira vez no dia. Um sorriso triste mas simbólico. Feliz por estar com sua família reunida. Seu filho, sua nora, seu velho companheiro e seu ventilador com suas hélices que giram azuis como sua mente.

terça-feira, 12 de maio de 2009

O corredor

O desafio era fechar a porta. Ela se foi. Talvez um dia a reencontrasse e se lembrasse deste agonizante momento em que a dilacerante dor da despedida trespassava-o o peito. Luana não voltaria, fechou-a enfim. Demorou-se um momento ainda de pé imóvel olhando a passagem outrora livre e que agora não se abriria novamente. Voltou-se para o deserto corredor excessivamente iluminado e caminhou. Haviam outras portas mas não quis abri-las. Em nenhuma delas estaria Luana. Uma constante neblina denunciava-se presente rente ao chão, mesmo não existindo. Era apenas um aspecto de realidade que se assume em nossos sentidos de acordo com os sentimentos demasiado intensos que as vezes nos acometem. Era longo o percurso e a resignada calma com que o fazia denunciava a impossibilidade de calculá-lo pela indiferente variável do tempo. Neste lugar ele não existia, se é que existia em algum outro.

A cada passo que dava deixava para trás não só as paredes do corredor, mas também pouco a pouco, como se feitas delas fossem, as lembranças dos momentos que as antecediam. Agora sentia paz e esperança e não pensava em nada. Seu caminhar era automático e seus olhos vislumbravam o poder hipnótico exercido pelas paisagens infinitas e repetitivas. Não havia som, nem silencio.

Foi quando o mundo se fez presente com sua temperatura gélida, seus desagradáveis ruídos e um gosto amargo na garganta seca como também eram os lábios vedados e queimados pelo frio. A pressão de um bocejar fez-se subitamente em seu pálato, mas sua boca permaneceu cerrada ao contrario de seus olhos que forçaram-se à abrir pela primeira vez em 8 meses.