Aos perdidos no deserto.

Olá prezado navegante, o que o fez cair aqui neste ambiente árido e sem vida (quase nenhuma)? Este lugar não é pra você. Não estou querendo expulsá-lo, porém! Fique à vontade.

Deixe-me contar - já que está por aqui - o motivo da criação deste ponto no meio do nada de um mar de IPs e máscaras de sub-rede. Mas antes, acho que posso mencionar que este blog já teve alguns nomes: fl4v10, tremdeler, poráguabaixo e outros de que eu não me lembro. Porém acho o atual nome mais adequado já que não possuo seguidores e apenas eventualmente recebo a visita de algum incauto redirecionado por motivo que foge a minha compreensão. Entrou em uma trilha e se perdeu?

Volto à razão da criação do blog, se o senhor ou senhora ainda estiver aí, que reverbera vazios verbos - e artigos, e adjetivos, etc - ao vento arenoso dos bytes. Certamente, se o ilustre visitante escreve e se goza de relativa autocrítica e cuja vaidade não interfere excessiva, deve já ter jogado fora alguns de seus escritos. O problema disto é que se perde alguma coisa boa dentre as tantas coisas ruins. Perde-se também um pouco da própria história literária (ainda que questionável ou incipiente). Como vamos perceber que evoluímos se separamos só um pequeno texto que ficou bom? Neste sentido criei um depósito de meus escritos. Confesso que a intenção era também me forçar a escrever já que poderia - algo que não se concretizou - ter eco em algum leitor que seguisse este espaço.

Assim, sem mais, o espaço existe. E existe só para mim (na maioria do tempo). Caso queira sinalizar na areia um traço de presença humana, fique a vontade para deixar um recado após o sinal!! E obrigado pela visita!

Beep.

P.S.: Este espaço está sofrendo um reboot. Alguns contos estão saindo daqui e sendo migrados para https://www.wattpad.com/user/Flavio7co (depois de alguma reescrita). Em breve este espaço possivelmente será apenas para não ficção e talvez algum rascunho antes do conto ir para o wattpad.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Texto Medíocre ou Pedante?

Raduan Nassar se tornou notícia neste mês de fevereiro (2017) com seu discurso político ao receber o prêmio Camões referente ao ano de 2016. Eu confesso que quando li Lavoura Arcaica achei-o muito rebuscado para meus parâmetros. O presente texto pretende discutir, aproveitando-se da referência ao autor e portanto à obra, a minha visão de como ajustar a linguagem à elaboração de uma composição literária, embora alusões possam ser feitas à outras formas de arte.

As motivações vieram de vários lugares. Este artigo por exemplo [link] discute a questão da acessibilidade em contraposição à erudição na literatura. Um texto muito rebuscado pode ser mais poético, entretanto muitas vezes menos compreensível e palatável. Como podemos então ajustar a linguagem do texto? Certamente um bom número de editores dirá para torná-lo o mais simples possível. E isto talvez prive totalmente seu trabalho de beleza e torne-o completamente irrelevante. Em um grupo de uma rede social um dos membros (em uma discussão que não cabe aqui) postou "Não entendo essa tara do povo por linguagem rebuscada e poética" e outro rebateu "Ou seja, vamos ser simplistas e nivelar a literatura por baixo?". Isto nos leva ao outro assunto...

Além da coerência textual e da clareza das ideias outra - talvez a maior - justificativa para simplificação da linguagem é ter uma maior amplitude de leitores. Atingir mais leitores é ter sucesso de vendas. O que nos leva à pergunta: seu objetivo com a literatura é ser sucesso de vendas? Responde-la pode dar uma boa dica sobre para qual público você deseja escrever. Se a resposta for "escrevo pra ser um sucesso de vendas" seu público é tanto maior quanto possível e, portanto, sua linguagem deve ser bem clara e sem floreios. Mas este desejo nos leva a outro ponto...

Esta reportagem [link] aponta para um fato: Escrevemos para quem? Quantos são nossos leitores? Conseguiremos disputar espaço com outros sucessos de venda? Vale a pena produzir, sabe-se lá a que custo, uma obra excessivamente "acessível" para um mercado tão pequeno?

Outro artigo [link] fala sobre a formação de leitores e sobre a qualidade dos livros que estão inundando o mercado. A reflexão deste artigo é se vale a pena produzir uma obra que nada acrescenta.

As perguntas que, portanto, se formulam e que pretendo responder nos próximos parágrafos à luz da minha visão são: Pra quem escrever / quem eu desejo agradar (editora, mercado, publico alvo, eu mesmo, minha esposa)? Como empregar o nível adequado da linguagem à obra que desejo produzir (rebuscada/medíocre)? Como saber se minha história tem relevância? Vamos às considerações.

 

Discutindo:


Antes de discutir para quem escrever talvez seja necessário imaginar porque escrever. Posso imaginar várias razões que motivam o escritor, entretanto eles, pelo menos na sua maioria, tem uma razão em comum: Os escritores apreciam a literatura, e o fazem de tal forma que querem fazer parte dela. Não consigo imaginar alguém que não valorize esta arte se disponha a perder tanto tempo na elaboração de um texto. Assim sendo concluímos que todo escritor é um leitor. E preferencialmente um grande leitor, e tal fato já deveria permitir a ele uma perspectiva de pelo menos quais são os limites mínimos e máximos de linguagem e estilo em que ele pode transitar.

No livro Sobre a Escrita o autor Stephen King diz que quando escreve imagina estar escrevendo para um leitor ideal, que no seu caso é sua esposa Tabitha. Suponho eu que a razão principal de tal estratégia é que ele pode calibrar seu texto imaginando os gostos dela, suavizando ou sofisticando sua escrita diante do que imagina que ela poderia preferir. Como não é possível fazer um trabalho que agrade a todos, esta estratégia é muito boa pois ao tentar agradar todo o potencial de mercado o autor conseguirá apenas não agradar ninguém. O problema é como escolher o leitor ideal, nem todos nós temos uma Tabitha dando sopa por aí.

Pessoalmente, acho que o autor deve escrever para si mesmo. Não me refiro à escrever para a gaveta. Quem escreve certamente deseja ser lido. Com esta afirmativa aludo à crença de o autor enquanto leitor pode (e deve) ser seu próprio leitor ideal. Sua sombra enquanto leitor certamente é capaz de opinar sobre outros autores (como eu fiz no primeiro parágrafo). Quando gostamos de um livro e principalmente se prestarmos atenção (leitura atenta) podemos enumerar as qualidades da obra. Apreciamos as estratégias do autor, sua maneira de apresentar o personagem, sua linguagem, sua forma de nos envolver, de cativar, etc. Quando não gostamos do livro, somos também capazes de dizer se a linguagem estava rebuscada demais ou tão simples que não nos desafiou, se o tempo era lento ou rápido demais, se tivemos dificuldades de nos envolver emocionalmente com os personagens, etc. Porque então não seriamos capazes de julgar nosso próprio texto?

Escrevemos porque somos leitores. Então a conclusão é simples: Não escreva um livro que você não tenha prazer em ler. Se escrever um livro pra impressionar ou pra ser reconhecido mas ele não o agradar como leitor sua naturalidade e fluência (sinceridade) vai por água abaixo e você não conseguirá justificar sinceramente suas escolhas que certamente serão artificiais ou baseadas em alguma outra obra (portanto sem originalidade). Se você escrever para agradar o maior número de pessoas e portanto vender muito, sua obra não te trará nenhum prazer ou orgulho. Ao escrever para você (como leitor) você irá encontrar dezenas de leitores como você que se identificarão tanto com seu estilo que serão seus para sempre. E quanto aos outros, você também lê autores que tem estilo diferente e é capaz de reconhecer a grandiosidade de suas obras, certo? Isto porque eles acreditam no que fazem. E o fazem com paixão.

Então da próxima vez que tiver dúvidas quanto aos ajustes do seu texto, antes de mais nada, pergunte ao seu leitor ideal. Se ele for sincero você se sairá muito bem.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O matador de cães

O cão foi encontrado em uma lata de lixo pelo gari, afogado em sangue talhado. O gari não gostava mesmo de cães, aquelas criaturas que não podiam vê-lo correr. Eles que o assustavam com frequência ao passar próximo aos portões. 

O próximo foi encontrado em um terreno baldio. O sangue havia se espalhado pelo chão de terra e dava pra ver claramente o buraco na barriga do cão. Ninguém deu importância porque mesmo sendo uma cidade pequena de Minas, uma vila na verdade, os dois foram encontrados nos dois extremos da localidade.

Ah! Mas quando o terceiro, quarto e o quinto apareceram os comentários nos botecos eram constantes. Alguns brincavam perguntando se os cães haviam se transformado em petiscos pra tomar com pinga. Outros diziam que o homem que saia na calada da noite para matar os desafortunados indivíduos de quatro patas deveria ser carteiro que nutria ódio ou trauma desde infância. Uma briga aconteceu quando um velho, tio de um carteiro, não gostou da insinuação xingou o acusador além de ter derrubado a pinga do amigo na própria goela em sinal de protesto.

O que mais se queria saber nas rodas de conversa, dentro dos botecos ou na conversa sussurrada das fofoqueiras, era quem era o tal homem que matava os cidadãos caninos da cidade. Não se sabe por qual razão todos cismaram que o serial canicidar era homem. 

Porém, ninguém se importava muito com os cães mortos. Eram bons animais, não incomodavam tanto, mas na cidadezinha não havia aqueles grupos de protetores de animais e madames que ficavam enchendo a paciência de todo mundo. Até tratavam animais melhores que pessoas. Não davam a mínima pra uma criança faminta, mas alimentavam os bichos à pão de ló. Que importava se alguns cães estivessem morrendo? Claro, era postura decorosa dizer que era uma judiação. Mas todos tinham sua vida pra cuidar. Os bichos se reproduzem sozinhos. Hora ou outra apareceriam mais cães na cidade se estes acabassem. Cães não são ameaçados de extinção. 

Ademais, uma hora esse rapaz se cansaria de matar os bichos. O diabo era ficar curioso com o motivo da matança. Se bobear era uma missão nobre. Livrar os cães da agonia dessa vida de esmolar comida. Poderia saber o misterioso homem de doença passada pelos cães. Poderia os cães estarem matando a criação de codornas da vizinhança. Não, ninguém deveria julgar. Vai ver, qualquer hora dessas ele se cansa de bancar o matador. Ou sente que já é seguro deixar os outros cães livres pra viver a vida sem disputar com muitos outros a sorte do pão, ou osso, de cada dia.

E foi justamente o que aconteceu. Poucos outros cães foram mortos. Uns três talvez, ou quatro. Cinco no máximo, e o assassinio canino cessou seu ofício. O último foi encontrado por uma senhora gorda que com o susto de encontrar o defunto peludo no quintal de casa acabou por se esborrachar no chão. O grito trouxe o neto pra fora de casa que não deu conta de acudir o soerguer de tanto peso. O caso virou comentário no bairro. Acho até que o tombo foi mais comentado que a pouca novidade de mais um cão morto.

Se está se perguntando sobre a polícia eu te digo, na vila a polícia lida com assuntos de gente. Como os cães não eram de ninguém não havia reclamante. Que desperdício seria ocupar a estrutura do estado com inumanos. Não queremos desperdiçar a confiança e o dinheiro do povo.

Depois disso os cães que sobraram viveram em paz. Ninguém soube de fato quem era o tal homem. Tudo voltou à normalidade como anunciaram aqueles que puderam se orgulhar do "eu disse pra você" proferido em sabedoria de conhecimento da vida.


Bom, pelo menos até alguns anos depois, encontrarem uma adolescente sem vida embebida em sangue com um buraco no ventre não muito longe de onde foi encontrado o primeiro cão.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Azul - Prólogo

Eu queria dormir, estava cansado, mas aqueles pensamentos ficavam girando em minha mente. Era meu ego, eu sabia, não queria ter raiva, não queria ficar pensando, só queria dormir. Mas ele me disse que eu não era racional, justo eu, não podia suportar esta ofensa. Ele é quem não era racional, ele ignorava toda a racionalidade, era ele quem definia o objetivo e agia de forma contrária, contraditória. Eu é quem devia dizer isso a ele. Mas se ele quer que eu faça o relatório, eu o farei. Um relatório inútil. Porque estou pensando nisso? Não queria pensar em nada. Eu as vezes fazia este exercício de não pensar em nada, apenas sentir. Ou pensava em algo bom, ou em um lugar interessante. Ou em alguém interessante, mas a mente resiste. Sinto a raiva enrijecendo meu corpo, meu semblante em ondas intermitentes. Meu pensamento gira e sempre volta na raiva. As vezes mesmo exausto passam-se horas sem que eu consiga dormir. Mas hoje o cansaço está vencendo, as paisagens e a roleta dos pensamentos, gostava de chamar assim, flutuavam e promoviam a desconexão com a realidade, e neste ínterim, quando acordava, percebia que estava quase dormindo. 

A roda d'água começou a girar, o rio estava calmo, os pés sentiam a terra. Agora entrava em um lugar fresco e com chão úmido de terra. Era um barracão feito de madeira e palha, havia muitas espigas de milho no chão. O cheiro de palha era bom, era hora de debulhar o milho, senti-lo nas mãos, no sono, no sonho, na mente, no relaxamento. A mente sempre acha uma forma de purificar-se, de atenuar os desprazeres pra não pifar. A prática da meditação pela manhã ajudava muito, desde que começara minha raiva não era tão frequente. Meu controle melhorara. Agora o barracão ficava cada vez mais escuro. Tudo parecia se esvanecer. Minha mãe estava lá comigo, meus avós já falecidos sentaram-se também. Meus tio-avô trabalhava num baleio de bambu. Trançava as tramas, tudo estava calmo, quase se apagando e se perdendo no sono profundo, profundo como a escuridão do barracão, tranquilo como o silêncio quebrado apenas pela água do riacho que passava ao lado... tranquilo... silêncio... profundo... sono... escuridão... 

Subitamente em um clarão tudo se iluminou, despertou, um clarão azul, minha cabeça parecia imersa em uma piscina ou banheira aquecida. Os contornos começaram a ficar nítidos, em contrastes em azul e preto. Era meu quarto, era onde eu estava, consciente, deitado, de olhos fechados. Mas ainda assim podia ver em nítido azul como se meus olhos estivessem abertos todos os cantos do quarto. Não precisava virar a cabeça, não precisava abrir os olhos. Não precisava caminhar nem focar, nem direcionar o olhar. Era como se visse tudo de uma só vez. O quarto todo em 360 graus. Mais do que isto, em todas as direções. Aliás, me dava conta agora, também fora do quarto e além das paredes. Tudo ficava menos nítido ao se distanciar, mas mesmo assim podia ver muito além do que a visão normal. Era um sentimento, uma sensação, uma visão azulada, um novo sentido, uma nova percepção. Ao abrir os olhos e acender a luz, pude perceber que não era um sonho. Algum sentido novo havia despertado, que me permitia ver de outra forma, em imagens que se sobrepunham às imagens captadas pela córnea e indo além. Que percebiam vultos. Que percebiam objetos ligeiramente diferentes. Mas uma leve lembrança dos pensamentos antes de dormir, uma leve pontada desses pensamentos ruins apagaram a chama azul. Devo dormir novamente. Conversaremos sobre a luz azul em meus olhos mais tarde...se ela voltar amanhã...

terça-feira, 9 de julho de 2013

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solidão é mundo sem gente
é agente sem todo mundo
é se descobrir diferente

é eco na casa. é ser invisível
é cogitar fazer o indizível

é prever um futuro sombrio
é viver na chuva e no frio
ser criança desprotegida fora da época
é escrever um poema sem métrica

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O oco

Se oco ressoa abafado o desgosto do enfado,
molesta o espírito em um grito contido
e consome o sentido já disforme e sofrido,
de existir arrastando-se nesse mundo estragado.